Rebentação

Para ser sincera, me senti sedada desde a primeira vez em que o vi.
Não sei o que me chamou a atenção (ou quando): talvez tenha sido a forma com que ergueu os olhos e me encarou por debaixo da camada de cílios grossos, sua voz rouca quase sussurrando meu nome, seu hálito quente... Talvez tenha sido a pequena ruga que surge entre seus olhos quando está muito concentrado. Ou talvez fosse a sensação de o conhecer por toda uma vida.
Então lá estava ele: finalmente me encarando seriamente com aquela gentil ruga entre os olhos e um suave sorriso brincando nos lábios. Ele se aproximou sem nunca realmente me tocar, mas sua respiração perto demais do meu rosto foi o suficiente para arrancar de mim algo que me pertencia.
E ele mexeu com a minha cabeça.
Abriu um buraco em minha memória, rompendo as barreiras do tempo e do espaço. Eu já não sei mais o que é sonho e o que é realidade, o que é passado e o que é o aqui e agora.
Porque ele chegou com a doçura de um beijo roubado e partiu antes que eu pudesse entender o que estava acontecendo, antes que pudéssemos desfrutar do nosso pequeno jardim secreto; e em várias noites me tirou o sono por não saber como me sinto - eu apenas esperava que me dissesse algo real.
E eu sentei e esperei, mas talvez exista um motivo para cada coisa que acontece. Timing não é algo que se pode controlar, e nós nunca teríamos tempo suficiente.
Todavia, enquanto este loop durar, o que me tomou oficialmente faz de mim sua prisioneira.
Então, por uma vida, cada vez que começava a me obrigar a voltar a mim e a recobrar o juízo, ele apareceria, me roubava o ar e partia novamente. Porque ele nunca poderia ser meu, não foi assim que fomos programados: nós somos peças de engrenagens diferentes que por um acaso se encaixam, mas não se pertencem porque são fundamentais em suas histórias definidas.
E, mesmo sabendo, eu quis cada pedaço dele em busca do que me pertencia. Jamais seria conhecida por pensar demais sem viver um momento que me traga intensidade, então segui esperando, deixando que a perda me mostrasse o significado.
Porque uma vez ele falhou em suas defesas e disse que não poderia me abandonar, e eu apenas queria que me levasse para fora do labirinto, para um lugar onde pudéssemos ser somente eu e ele, e mesmo que em um doce sonho selvagem, nós viajaríamos por uma estrada aberta e ele me beijaria sobre uma montanha; seríamos apenas nós dois rindo e dançando e bebendo ao luar se eu pudesse ser somente eu, se ele pudesse ser somente ele.
E, no meio disso, tive que aceitar que antes e agora eu sou uma bagunça - talvez, a bagunça que ele precisa. Em uma sala cheia de gente eu não ouço ninguém quando ele está - espero que possa ver isso para calar sua mente e deixar seu coração respirar, mesmo sabendo que posso nunca conseguir me recompor, pois somos insubstituíveis em nosso pequeno segredo, e eu, perfeitamente imperfeita, não trocaria isso por nada.
Mas um dia ele disse que já não voltaria, e por algum motivo sem juízo minha resposta realista e extravagantemente sincera pareceu contraria-lo; não sei que tipo de brincadeira fazia, mas talvez pela primeira vez senti que não correspondia suas expectativas. Foi apenas um teste? Que jogo é esse que me anestesia? Quando algo está vivo você não pode simplesmente dizer "morra". Então o que quer de mim? Quer que eu desafie meus programadores como quem implanta um vírus em si mesmo? Quer que eu renegue meu roteiro e apenas improvise?
O que fará quando as paredes vierem abaixo? Será capaz de abaixar suas armas e ficar sem defesas ou correrá de volta para sua narrativa desmemoriada? Eu posso encontrar o retorno por mim mesma, pode me deixar sozinha porque, uma a uma, eu as vejo cair; logo não haverá mais nenhuma barreira no caminho. Se sabe o que é certo, caminhará para longe quando as paredes começarem a vir abaixo...
Mas ele acariciou minha pele gentilmente com as pontas dos dedos, inebriou minha mente e possuiu meu corpo. Meu coração perdeu uma batida e o mundo entrou em chamas; e mesmo quando ele disse que foi um erro, examinando clinicamente cada pequeno detalhe que ameaçava ou que poderia futuramente fugir ao seu controle, mesmo quando partiu novamente e me vi de volta ao meu posto, obrigada a seguir com a narrativa de um dia em que sempre acabaria ferida e indefesa, apenas conseguia pensar: "deixe queimar".
Porque estou em queda livre para o meu familiar reflexo, e há algo cheio e precioso sobre esse pecado. Não preciso ser eterna, somente quero viver tudo, sentindo o máximo de cada experiência.
Não me leve a mal, eu sou uma máquina projetada para agradar quem olhar com atenção, reprogramada antes de ser atingida por consequências, e por mais que negue minha criação, não posso deixar de estar ao seu dispor, te seguindo em sua busca por algo que não pode ver.
E eu o seguiria por vales e florestas e por cidades abandonadas, e enfrentaria as tempestades de areia e os saqueadores sob o seu comando...
Porque eu gosto de como ele me faz sentir mesmo sendo um jogo perverso me fazer sonhar com ele; com a ameaça de um toque ele me toma, e ainda que seja um jogo onde nunca sei ao certo quando e onde, com a única certeza de que não há possibilidade de ser certo, enquanto durar eu incendiaria o mundo para ter apenas um pouco mais disso, para me sentir viva.
Mas as paredes estão caindo e estamos nos aproximando cada vez mais do ponto sem retorno, a cada palavra sussurrada ao vento, a cada olhar, e eu sigo querendo mais mesmo atada à minha narrativa. Não sei mais se quero fazer parte dela; seria bom apenas soltar todo esse peso que venho carregando, deixar para trás o texto decorado, as repetições da página branca em branco, cheia de dor e de raiva...
Mas esta é a minha história, e a bagagem é o que faz de mim quem sou. Andei oito mil léguas com os pés descalços para perceber que apenas queria encontrar meu caminho de volta para casa.
Então ele disse adeus - ou talvez tenha sido eu; não como em uma conversa, mas apenas silêncio.
Para ser sincera, me senti sedada desde a primeira vez em que o vi.
Não sei o que me chamou a atenção (ou quando). Ele mexeu com a minha cabeça, entorpeceu meus sentidos e possuiu meu corpo, mas nada disso importa porque eu me lembrei qual o verdadeiro propósito da minha programação.
Então sua doçura excitante e seu toque se desfizeram pouco a pouco no mar negro da memória; agora que cheguei ao final do labirinto nem mesmo parece real.
Porque eu sou o ponto cego, a consciência, o ermitão que assiste e julga; eu sou o vírus oculto no sistema, o efeito colateral que te invade e te marca. Posso ser seu paraíso ou dar o tiro final em sua cabeça - porque eu gosto.
Quem diz que a verdade é bela, afinal?
Quem diz que a verdade é bela, afinal?




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