Be Our Guest

Se tivesse que descrever o live-action da Disney de A Bela e a Fera em uma palavra seria, com certeza, detalhes. E é apenas maravilhoso!
Eu gosto de spoilers.
Muitas vezes, saber o que esperar me faz apreciar mais o processo, mas essa sou eu.
Sabendo que muita gente não gosta (apesar de, para mim, não fazer o menor sentido ler um post sobre a opinião de alguém sobre algo sem querer saber exatamente porque ou sobre o que, mas enfim) decidi esperar para falar sobre este que é, de longe, meu conto de fadas preferido desde sempre.
Enquanto em todos os outros contos a pobre princesa injustiçada sempre muito educada e bela, recatada e do lar esperava ser salva, havia algo diferente a respeito da Bela, começando pelo fato de que a Fera - ou príncipe Adam (sim, ele tem nome!) - não pode ser considerado exatamente um cavalheiro não é mesmo?
Podemos levantar várias questões sobre essa história ainda pensando no desenho: eu sempre encarei a Fera não como um monstro literal, mas como um homem com sérios problemas de temperamento, enquanto a Bela é apenas muito à frente de seu tempo, sendo sempre a peça que não se encaixa, e isso é muito confuso e doloroso; e temos os habitantes do castelo, pagando e tendo que conviver com os erros do seu mestre.
Então, para proteger sua família, Bela se vê prisioneira de um homem muito amargurado. Ela é obrigada a aprender a lidar com as mudanças de humor dele, enquanto a Fera tem a tarefa de aprender a respeitá-la. E, não se engane: a situação só vira uma história de amor pela forma com que a Bela passa a encarar a situação após ver uma sombra bondade em Adam.
Em outras palavras: casamento.

E aí precisamos entender o contexto histórico: A Bela e a Fera é o tipo de história que as meninas cresciam ouvindo para que aceitassem o casamento arranjado pelos pais, o conto era como uma promessa de que com esforço e aceitação, as garotas poderiam posteriormente se apaixonar por seus maridos, porque o matrimônio é felicidade eterna, e a virtude e a diligência são sempre recompensados, a arrogância é punida e a essência de cada indivíduo é mais importante que sua aparência exterior.
O conto foi oficialmente publicado pela primeira vez em 1740 em uma coletânea escrita pela francesa Gabrielle-Suzanne Barbot de Gallon de Villeneuve. A história rebuscada foi simplificada e publicada novamente na França em 1756 por Jeanne-Marie LePrince de Beaumont.
No conto, um mercador falido tinha três filhas: as mais velhas gostavam de ostentar luxo, enquanto a mais nova era gentil e generosa, gostava de leitura e tratava bem as pessoas. Um dia, o mercador recebeu notícias de bons negócios na cidade, e resolveu partir. As duas filhas mais velhas, esperançosas em enriquecer novamente, encomendaram-lhe vestidos e futilidades, mas Bela, preocupada com o pai, pediu que ele lhe trouxesse uma rosa.
Quando voltava para casa o homem foi surpreendido por uma tempestade, e se abrigou em um castelo, onde tudo o que precisava lhe era servido sem que ninguém se apresentasse para recebê-lo. Ao partir, pela manhã, avistou um jardim, e, se lembrando do pedido de Bela, colheu uma rosa, quando foi surpreendido pelo dono do lugar, uma Fera pavorosa que lhe impôs uma condição para viver: o mercador deveria trazer uma de suas filhas para se oferecer em seu lugar.
Ao invés de devorá-la, como Bela imaginava que a Fera faria ao se apresentar no castelo, o monstro foi se mostrando aos poucos como um ser sensível e amável, fazendo todas as suas vontades e tratando-a como uma princesa. Apesar de achá-lo feio e pouco inteligente, Bela se apegou ao monstro que a pedia constantemente em casamento, e ela gentilmente o recusava.

Um dia, Bela pediu que Fera a deixasse visitar sua família, e muito a contragosto, ele permitiu, com a promessa de Bela retornar em uma semana e, para isso, bastaria colocar seu anel sobre a mesa, e magicamente retornaria. Bela visitou alegremente sua família, mas suas irmãs, ao vê-la feliz, rica e bem vestida, sentiram inveja, e a envolveram para que sua visita fosse se prolongando, na intenção de que Fera desistisse de Bela e aceitasse outra em seu lugar.
Bela foi prorrogando a volta até ter um sonho em que via a Fera morrendo. Arrependida, colocou o anel sobre a mesa e voltou imediatamente, encontrando a Fera morrendo no jardim, pois ele não se alimentara mais, temendo que Bela não retornasse. Com o risco iminente de perdê-lo, ela compreendeu que o amava, e aceitou o pedido de casamento. Ao pronunciar essas palavras, Bela quebrou o encantamento e a Fera transformou em um lindo príncipe. Eles se casaram e foram felizes para sempre.
Eu tinha um livro de contos quando era criança e essa era a versão de A Bela e a Fera que eu conhecia até assistir a animação da Disney.
Em 2014 foi lançado o longa francês La Belle et la Bête adaptando este conto. Neste filme ostentoso, a maldição da fera foi lançada pelo deus da floresta, condenando-o a viver como monstro até que encontrasse alguém que o amasse, por, em sua arrogância, ter caçado a corsa dourada, que na verdade era a ninfa do bosque, e a mulher que ele amava.
Mas voltando à versão live-action da Disney...
O longa é realmente muito fiel ao desenho, tanto que não senti falta de nada que possa ter sido removido ou modificado, e olha que assisti as duas versões muitas vezes! E as novidades trouxeram apenas melhorias.
Sim, a Bela é mais Girl Power, da personalidade às roupas, e isso apenas a faz parecer mais real. Ela não é uma "garota estranha" apenas por ser rata de biblioteca, mas porque também é inventora, como o pai. Há uma contextualização histórica criada no filme que amarra tudo.
A história criada para a mãe da Bela e todas as cenas do Maurice, mas principalmente a primeira, onde ela canta em sua oficina cria um conto inteiro apenas para ele, justificando sua superproteção com a Bela ao mesmo tempo que parte qualquer coração! Estamos contigo Maurice! S|2
Os produtores e o tio Bill Condon se preocuparam em aprofundar a personalidade e a história de todos os personagens: adorei a vila também fazendo parte da maldição, esquecendo seu príncipe e os funcionários do castelo que faziam parte de sua família e da comunidade. E, por falar nisso, foi maravilhosa a justificativa do motivo de a população do castelo também ter sido castigada! Negligência é algo muito sério, e traz consequências. Amei os personagens-objetos ficando cada vez mais imóveis a cada pétala que cai, enquanto a Fera se sente cada vez mais solitária, e o visual mais barroco de cada um deles, e do castelo.
Adoro que tenham trazido à tona o passado tanto da Bella quanto da Fera, mas isso também trouxe os pontos fracos da história: Bella fala várias vezes da "Paris da sua infância", que ela se lembra e é difícil de superar, mas no momento de mostrar o que houve de fato, ela era apenas um bebê. (WTF?!) Do que é que ela sente tanta falta? E quanto a Fera... Fala de sua mãe ter morrido e do seu pai ter sido um homem cruel, mas a imagem não colabora com o discurso deixando-o incompleto, e levanta a pergunta de onde está o Rei? O que houve com ele?
Temos uma explicação muito coerente do motivo de o Gaston ser tão adorado pela vila: quem não adora um herói de guerra? E talvez até por isso que ele tenha uma moral tão duvidosa...
E então a polêmica: Lefou super gay!
Não sei qual é o motivo de tanto alarde porque, se você observar bem o personagem na animação de 1991, Lefou sempre teve lá uns trejeitos! E porque ele teria uma adoração tão forte pelo Gaston? Qual é! Gente, vamos parar de ser babaca, por favor! E por falar na adoração do Lefou... Aqui podemos acompanhá-lo criando consciência e perdendo a admiração por Gaston enquanto este vai tomando uma atitude imoral atrás da outra. Muito bom!
Sabe qual é o melhor? Fizeram uma polêmica tão grande ao redor de o personagem ser obviamente gay antes mesmo de o filme estrear, que os puritanos de plantão perderam a referência Drag! Sim, vocês não leram errado! A Madame Guarderobe até cantarola "be free" para os invasores que ela fantasiou no castelo, especialmente para aquele que gostou!
E os caçadores de escândalos também não notaram que o Lefou encontra um par no Baile Real da Bela e do Príncipe Adam...
Então tem a feiticeira que está mais para uma bruxa, que mora na vila e está sempre por perto avaliando seu trabalho. Em algumas vezes funciona, mas em outras a faz parecer deslocada e inconveniente. Mas perdoamos!
O que eu não perdoo é a falta das imagens do castelo se transformando! Elas estavam no primeiro teaser trailer e não estão no filme! COMO ASSIM? Faz muita falta aquele silêncio musicalizado! Tio Bill Condon, estou esperando pacientemente pela versão estendida, ai de você se esta cena não estiver lá!
De modo geral, se vê uma história menos inocente, com um sofrimento mais tangível e até brutal. O live-action da Disney de A Bela e a Fera é ainda mais romântico que o desenho, e muito mais bonito.
E você, o que achou? Encontrou algum detalhe interessante escondido? Compartilhe!




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