top of page

Ele está de volta

Foto do escritor: Renata Salles
Renata Salles
14 de out. de 2016
3 min de leitura

Ele está de volta | Catarse

Na comédia Ele Está de Volta Adolf Hitler está livre, leve e solto caminhando pelas ruas da Alemanha nos dias de hoje, e, sério, você precisa assistir esse filme!


Falar sobre Adolf Hitler e sobre o Nazismo é uma coisa muito delicada: uma ferida dolorosa demais, um assunto que certamente deveria causar arrepios em toda a espécie humana, que deveria nos fazer contorcer de vergonha e de arrependimento, e repensar e questionar a todo momento sobre a vida e sobre o sistema que nos envolve e nos domina.


Mas todos sabemos que, na prática, não é bem assim. O ser humano é essencialmente hipócrita e desmemoriado.


E então vemos os alemães, um povo que – assim como os americanos, ingleses, espanhóis, entre outros – tem suas ruas e ossos submersos em sangue, e uma dívida com a vida que jamais serão capazes de pagar, tendo a coragem (ou necessidade) de tratar desse assunto tão pesado e cheio de espectros de forma tão leve, mas clara, revelando Hitler, seu salvador e carrasco, e, ao mesmo tempo, o próprio povo alemão com tanta eficiência que até constrange.


O ponto de partida de Ele está de volta e o do livro homônimo (Er ist wieder da, em alemão) de Timur Vermes, é que, um belo dia, Adolf Hitler desperta misteriosamente na Berlim de 2011, sem qualquer noção do que aconteceu no país e no mundo desde 1945. Após se atualizar Hitler logo planeja a reconstrução do Reich, e, em meio a isso, acaba atraindo a atenção de uma emissora de televisão.


Acontece que todos acreditam que ele seja um humorista genial que simplesmente se recusa a sair do papel. As pequenas inserções “cômicas” de Hitler na TV com seus discursos “führiosos” tornam-se virais no YouTube, e ele logo acaba sendo amado pela população. E, acredite, Adolf tem uma opinião muito bem articulada sobre absolutamente tudo: notícias cotidianas, desenhos, esportes, humor… Hitler chega até a admirar o altruísmo “proto-germânico” da Wikipédia (Oi?).


Publicado no Brasil pela editora Intrínseca, o livro é narrado em primeira pessoa pelo próprio Hitler, com a linguagem de quem realmente acredita que é destinado a salvar a Alemanha, e, quem sabe, o mundo. Lembra os escritos do próprio Adolf no polêmico “Minha Luta”, com um estilo rebuscado, pretensamente épico, dando importância a cada frase.


Ele está de volta vendeu 300 mil exemplares apenas nos primeiros três meses na Alemanha, e o sucesso surpreendeu principalmente seu autor, que acreditava que seu trabalho seria abraçado apenas por um mercado limitado.



Todavia, David Wnendt, diretor do longa Ele Está de Volta vai muito além: a equipe atravessou a Alemanha com o ator Oliver Masucci que encarna o ditador nazista, gravando com câmeras escondidas a reação dos civis. O resultado apresentado no filme é perturbador: por onde passavam Hitler era cumprimentado entusiasmadamente. As pessoas assumiam postura de soldado, faziam a saudação nazista e até aproveitavam para tirar uma foto ao lado do “Führer”.


A reação das pessoas estarreceu o ator devidamente caracterizado que mantinha o personagem a todo momento, introduzindo discursos que incentivavam as pessoas a desabafar, e alguns nem precisavam de muito incentivo para “abrir seus corações”. Então discursos de repúdio a imigrantes, discriminação racial, homofobia e até pró-nazismo (“naquela época nem tudo era tão ruim”, diz um homem em um bar) são ditos em voz alta em pleno ano de 2014, e enquanto o filma avança leve e engraçadinho você percebe com crescente terror que, na realidade, nada mudou – ainda que a maioria dos alemães dê boas vindas aos refugiados, por exemplo, o filme deixa claro que, para jovens e velhos, Adolf Hitler e o nazismo não estão tão presentes como advertência permanente quanto os alemães gostariam de acreditar.


“Havia uma ira silenciosa entre a população, que me lembrava 1933. Só que na época o termo ‘desilusão política’ ainda não existia”, diz Hitler no filme, em referência ao ano em que os nacional-socialistas assumiram o poder na Alemanha.


Mas não é só o povo Alemão que foi exposto: dá para fazer grandes e trágicas associações com os brasileiros, e com o momento político-social que vivemos agora (o qual já falamos aqui).


Ele está de volta na verdade não é uma comédia, é a realidade sendo cuspida na sua cara com uma linguagem de cinismo tragicômico, raro no cinema, mas característico do Teatro do Absurdo.


O longa estreou na Alemanha dia 9 de Outubro de 2015.


Por aqui, Ele está de volta pode ser facilmente encontrado na versão dublada ou legendada por aí na internet, e está disponível em nosso amado Netflix. S2


Então corre para assistir!




Posts recentes

Ver tudo

Comentários


CATARSE

©2017 - Todos os direitos reservados

As imagens de filmes, séries, etc, são marcas registradas de seus respectivos proprietários

polishop.vc/store/renatajorge
  • Grey Pinterest Icon
  • Grey Facebook Icon
  • Grey Instagram Icon
  • Grey YouTube Icon
bottom of page